quarta-feira, 5 de abril de 2017

Entrevista com o cartunista Lucas Libanio


O cartunista Lucas Libanio conta um pouco sobre seu processo criativo e fala sobre o "politicamente correto" e os caminhos que os quadrinhos vêm tomando no Brasil.
Mineiro de Uberlândia, Lucas formou-se em Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais e em Cinema de Animação pela Escola de Belas Artes de Minas Gerais. Começou fazendo trabalhos de animação para publicidade, trabalhou com ilustração e HQs, foi professor no Instituto de Arte e Projeto (INAP) e, atualmente, colabora com a produção de tiras no jornal Super Notícia (um dos jornais mais vendidos no Brasil, com circulação em Belo Horizonte). Confiram a entrevista completa!

Lucas Libanio em processo criativo de uma das tiras de Hans Grotz.
Embaixo, a tira pronta.

Carmem: Primeiramente, conte como se deu a descoberta de seu dom para o desenho.
Lucas: Nem sei se é dom realmente. A maioria das crianças desenha e quando chega em uma certa idade se entediam por não ficarem mais satisfeitas com o que desenham e acabam parando. Eu nunca parei e, de certa forma, é por isso que consigo chegar a algum resultado. Acho que comecei a desenhar tentando imitar os personagens dos desenhos animados tipo Pica-Pau, Pernalonga e Mickey.

Uma das tiras de Hans Grotz
em que aparecem algumas influências
no trabalho de Lucas Libanio.
Carmem: E as tiras? Seu gosto por elas nasceu a partir do contato com as artes de quais cartunistas? Você se inspirou – ou ainda se inspira - em alguns deles?
Lucas: Costumo dizer que queria desenhar seres humanos como o André Franquin (Gaston Lagaffe) e animais como o Walt Kelly (Pogo). Meu desenho está impregnado de influências de cartunistas dos anos 20 e 30 como EC Segar (Popeye) e Billy DeBeck (Barney Google & Snuffy Smith). Comecei a ler quadrinhos com o Pato Donald e o Recruta Zero, logo em seguida, Asterix e Tintim, que eram álbuns mais caros que os gibis de banca, então não tinha como comprar sempre. Creio que o Pato Donald e Recruta Zero me abriram o gosto pras tiras americanas clássicas, assim como Asterix e Tintim me abriram pros quadrinhos Franco-Belgas. Sempre me surpreendo quando me deparo com coisas de 50, 100 anos atrás que não conhecia. 

Algumas tiras de Hans Grotz, por Lucas Libanio.
Clique sobre a imagem para ampliá-la.

Carmem: Fale um pouco sobre o processo de criação de seus personagens. Os traços, a personalidade e o roteiro costumam surgir separadamente ou, geralmente, você já os concebe praticamente “prontos”?
Lucas: Eu rabisco o tempo todo. Anoto ideias em forma de desenhos rápidos só pra não esquecer. Tento manter uma linha básica de comportamento pros personagens não virarem algo genérico demais, mas muita coisa vai se moldando é com o uso mesmo. Tem piadas que fiz com o Grotz no início que não cabem mais hoje.




Hans Grotz ganhou duas publicações: 
"Opiniões Descartáveis" e "Mais Opiniões Descartáveis"
Foto: Carmem Toledo
Carmem: Sobre as tiras de Hans Grotz (que ganharam duas publicações – a primeira, editada com recursos próprios e a segunda, concretizada graças ao financiamento coletivo), gostaria de saber se a personalidade do protagonista é uma via facilitadora da liberdade de expressão de determinadas opiniões e críticas políticas, sociais ou comportamentais. A aparência física - que me fez lembrar muito do escritor Charles Bukowski, com um leve toque de Capitão Haddock (personagem da HQ belga “As Aventuras de Tintim”, de Hergé) - e o comportamento do personagem (um homem bruto e solitário que vive com um tucano empalhado) foram planejados, tendo a intenção de romper as barreiras do “politicamente correto”?
Lucas: Na verdade, se eu tiver que pensar o tempo todo no que é politicamente correto ou não, eu nem faço nada. Eu cresci acostumado com personagens que não têm obrigação de dar exemplo de conduta, justamente por serem ficcionais.O Capitão Haddock é um bom exemplo, mas também o Popeye, o Pato Donald e até o Asterix e o Obelix. Acho que se você ri do Coiote tentando jogar uma rocha no Papa-Léguas não quer dizer que você quer sair por aí jogando rochas nas pessoas. O Bukowski mesmo, através de seu alter-ego Henry Chinaski, é o cara que você, dentro da história, está do “lado” mesmo sem realmente concordar com nenhuma de suas atitudes. Um personagem é um exagero que muitas vezes não funciona existir no mundo real. Costumo dizer que o Hans Grotz é uma versão minha sem polimento e sem traquejo social. Suas opiniões são, muitas vezes, um pastiche das minhas. 

"Costumo dizer que o Hans Grotz é uma versão minha sem polimento e sem traquejo social.
Suas opiniões são, muitas vezes, um pastiche das minhas. " Lucas Libanio.

Carmem: Quanto às tiras dos Molekóids, é possível notar também a liberdade na linguagem e nas histórias criadas por você. A inocência das crianças permite que sejam ditas frases e sejam tomadas certas atitudes que nós, adultos, na maioria das vezes, condenaríamos ou, no mínimo, olharíamos com certa dose de zelo exacerbado. Outra personagem que prova isso é Mafalda, do cartunista argentino Quino, que se utiliza da pureza de uma garotinha para expressar críticas políticas e sociais. A infância é uma fase em que os tabus não ganham espaço – ou encontram dificuldade para se instalar? Personagens representantes desta fase são bons instrumentos para a manifestação de um olhar crítico do autor?
Algumas tiras dos Molekóids, por Lucas Libanio
Lucas: Inicialmente tinha feito uma série de dez tiras com crianças pra tentar oferecer a uma publicação infantil; acabou não dando certo. Anos depois, eu publiquei uma amostra dessas tiras na internet o Giorgio Cappelli, da editora Bila, me perguntou se eu queria publicar no site dele uma vez por semana, aliás, o nome “Molekóids” foi sugestão dele. Acho um bom exercício trabalhar dentro deste conceito. Eu uso muita coisa da minha infância em algumas piadas. Diferente da Mafalda, eu deixo os Molekóids meio “alienados” no mundo deles. Não os vejo tendo opiniões e nem fazendo crítica com conteúdo “adulto”. Gosto de pensar que eles nem sabem quem é o presidente e nem que existe engajamento e militância. 

Carmem: Sabemos que a charge e as tiras sempre foram instrumentos muito utilizados na crítica política e social por meio de sátiras. O Brasil tem grandes cartunistas que, inclusive, entraram para a história da arte de protesto (exemplos disso são os nomes que estiveram à frente dos jornais O Pasquim, O Cruzeiro e da revista Pif Paf). Em que medida você acredita que a charge, ao utilizar estratégias humorísticas na transmissão de determinadas informações, interfere na editorialização do veículo em que ela está inserida?
Lucas: A charge no Brasil já foi muito forte. Creio que no passado as charges estavam bem em sintonia com os veículos onde impressas. O Cruzeiro mesmo muitas vezes ilustrava a matéria de capa com uma charge. O Pasquim e a Pif Paf eram jornais de humor e resistência. Hoje acho que muitos jornais as mantêm só por tradição mesmo. A gente vê muita charge circulando na internet, algumas já passaram por jornais e revistas e outras circulam exclusivamente em meio virtual. Os compartilhamentos em redes sociais desassociam completamente a charge de qualquer veículo de imprensa. Na maioria das vezes, nem se sabe de onde vieram.

Carmem: Na sua opinião, quais caminhos esta arte vem tomando no Brasil?
Lucas: Eu realmente acho que a leitura de quadrinhos não é mais o entretenimento de massa que já foi um dia. Basta comparar as tiragens dos gibis de 40 anos atrás e as de hoje. No entanto, muita gente continua produzindo, muitas vezes de forma independente (como eu mesmo faço). Tiragens mais baixas e muitos mesmo só existem em meio virtual. Há uma boa variedade de temas, estilos de desenho e linguagem no que se tem produzido, mas dá pra contar nos dedos os profissionais que conseguem viver exclusivamente disto.

"Diferente da Mafalda, eu deixo os Molekóids meio “alienados” no mundo deles.
Não os vejo tendo opiniões e nem fazendo crítica com conteúdo “adulto”.
Gosto de pensar que eles nem sabem quem é o presidente e nem que existe engajamento e militância. " Lucas Libanio.

Carmem: Quais são as dificuldades encontradas por quem se dedica aos quadrinhos em nosso país?
Lucas: Acho que são as mesmas dificuldades que outras formas de expressão encontram. Na verdade atualmente tudo que não é “primeira necessidade” acaba comprometido. Existe um outro fator também, a maioria dos cartunistas não é lá muito empreendedor (eu me incluo logicamente). É muito dificil comercializar nosso trabalho.

"Eu nunca parei e, de certa forma,
é por isso que consigo chegar a algum resultado."
Lucas Libanio.
Carmem: Para encerrar, gostaria que você dissesse por que vale a pena persistir neste caminho.

Lucas: Eu realmente não tenho escolha. É o que sei fazer. Na verdade, é a única coisa que faço com uma certa competência (e alegria). Nada contra quem fica desiludido e resolve ser feirante ou caminhoneiro... ou advogado. Pra mim não funciona. Acho que é patológico.



Entrevista realizada por Carmem Toledo para o blog Culturofagia (http://culturofagicamente.blogspot.com) em abril/2017.

Imagens: Arquivo pessoal de Lucas Libanio.
Fotografia dos livros "Opiniões Descartáveis" e "Mais Opiniões Descartáveis": Carmem Toledo sobre obra de Lucas Libanio

Mais informações sobre Lucas Libanio podem ser encontradas na página
Seu trabalho pode ser acompanhado nos links abaixo:


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